Brasil Brau 2026: Porque um dia não foi o suficiente para ver o futuro da cerveja
Edição passada movimentou R$ 470 milhões em negócios, reforçando papel do evento como plataforma de relacionamento e geração de oportunidades.
Às sete da noite eu já quase não conseguia falar. Era uma mistura de cansaço, cerveja, barulho de feira, encontros, conversas longas demais para caberem em vídeo e aquela felicidade meio específica de encontrar muita gente do meio cervejeiro no mesmo lugar.
Eu tinha passado o dia andando pela Brasil Brau 2026, gravando, perguntando, provando coisas, tentando entender o que estava acontecendo ali. E mesmo assim fiquei com a sensação de que tinha visto pouco.
A missão de entender para onde a conversa sobre o mercado cervejeiro está indo
Antes de ir, eu tinha perguntado no Instagram o que as pessoas queriam ver na feira. Muita gente pediu novidades, tecnologias, equipamentos, valores, coisas que normalmente parecem distantes de quem está fora daquele ambiente. Isso me deu uma espécie de missão: tentar entender o que estava sendo apresentado, o que as empresas estavam tentando resolver e para onde a conversa cervejeira parecia estar indo.
Eu gosto da Brasil Brau por causa disso. Ela não é um festival, embora em vários momentos pareça um. Você bebe cerveja boa, encontra amigos, conversa com cervejeiros do Brasil inteiro e depois a feira continua nos bares de São Paulo, nas mesas, nas conversas atravessadas, nos projetos que começam sem muita cerimônia.
Mas a Brasil Brau tem uma coisa diferente. Você vê a cerveja sendo pensada antes de ser servida. Equipamentos pequenos, equipamentos enormes, insumos, envase, fermentação, filtração, leveduras, extratos, ideias novas e algumas ideias que ainda precisam provar muito. Tem coisa que parece sonho de cervejeiro caseiro. Tem coisa que você nem sonha ainda, porque está em outra escala, em outro orçamento, em outro mundo.
A feira funciona um pouco como uma aula bagunçada. Você entra em um corredor para ver uma coisa e sai de lá pensando em outra:
- Uma conversa sobre equipamento vira uma conversa sobre processo.
- Um produto novo abre uma discussão sobre aroma.
- Uma cerveja sem álcool puxa uma pergunta sobre enzima, corpo, dulçor e fermentação.
A força dos bastidores
E no meio disso tem gente. Muita gente.
Talvez essa seja a parte mais difícil de mostrar. Com estande bonito, equipamento brilhando, cerveja sendo servida, mas a força dela está muito nas conversas. Cervejeiro caseiro falando com fornecedor. Cervejaria pequena olhando tecnologia grande. Profissional experiente encontrando aprendizes. Que se vê uma vez a cada dois anos e continua uma conversa que parece nunca ter terminado.
Teve uma cena que resume bem esse clima. Em determinado momento, perto do estande da Agrária, começou uma música alemã, com o pessoal batendo colheres de madeira. Em volta havia outras empresas, inclusive concorrentes. Pessoas passando, parando e entrando na brincadeira. Por alguns minutos a feira ficou leve de um jeito muito cervejeiro. Produto, técnica, negócio e diversão ocupando o mesmo espaço.
É por isso que a feira é um dos melhores encontros cervejeiros do Brasil. E talvez até mais divertido, para mim, do que muitos festivais. Porque no festival você encontra a cerveja pronta. Lá, você encontra também as pessoas, os bastidores, as perguntas, as soluções, os exageros e as apostas.
Cerveja sem álcool, lúpulos concentrados e barril flexível.
A feira parecia responder uma parte daquela pergunta que eu tinha levado do Instagram: o que está acontecendo de novo na cerveja?
A cerveja sem álcool foi um grande destaque E sempre tem alguém prometendo a solução definitiva e a técnica revolucionária, mas diferença ali dava para ver o resultado na hora. Uma coisa é alguém dizer que resolveu corpo, dulçor, ou o temido “gosto de mosto”. Outra é colocar a cerveja na minha frente e deixar que ela se defenda. E algumas se defenderam muito bem.
Também vi muito produto avançado de lúpulo, com extratos, soluções concentradas, formas diferentes de buscar aroma, rendimento e controle. Mas era impossível não perceber que estavam vendendo uma ideia de lúpulo mais precisa, mais eficiente, menos dependente só da adição tradicional.
Na parte de equipamentos maiores, soluções de filtração, automação, envase e barris diferentes. Nem tudo está perto da minha realidade, mas olhar para essas tecnologias ajuda a entender o caminho.
No meio disso apareceu algo curioso: um barril flexível, dobrado no meio, que parecia mais um saco pequeno de malte. O expositor afirmava que suportava 6 kg de pressão. Eu trouxe um para testar. Pode ser uma ótima ideia ou uma coisa inviável por custo, mas esse é o tipo de objeto que faz a feira valer a pena para mim: você vê, pega na mão, conversa, imagina um teste e sai com vontade de descobrir.
O veredito: a cerveja em movimento
No fim do primeiro dia, eu estava destruído. Tinha gravado bastante, conversado, provado muita cerveja, visto tecnologias que eu queria entender melhor e ainda faltava uma parte enorme da feira. Foi aí que percebi que um dia não bastava.
Voltei no segundo dia aceitando que a Brasil Brau é grande demais para caber um vídeo ou em uma passada rápida pelos corredores. No fim, acho que consegui mostrar só uma parte.
Sei que muita coisa boa que ficou de fora, mas acho que o conteúdo final cumpre bem o que eu fui buscar ali: não uma lista de novidades, e sim uma tentativa de entender para onde a cerveja está indo.
Eu fui achando que um dia bastava. Não bastou. E, sinceramente, isso reflete bastante sobre a Brasil Brau.
Sobre o autor:
Jamal é fundador do Beer School, canal e escola dedicados ao ensino técnico de cerveja. Há mais de 11 anos, produz conteúdo sobre produção cervejeira, estilos, processos e cultura cervejeira, formando cervejeiros caseiros e profissionais em todo o Brasil.